Geradores em emergências: o que quase ninguém sabe (e que pode salvar vidas)

Geradores em emergências: o que quase ninguém sabe (e que pode salvar vidas)

Os fenómenos meteorológicos extremos recentes deixaram muitas pessoas sem eletricidade, água e comunicações durante horas ou dias. Perante esta realidade, é natural que muitas famílias tenham recorrido a geradores portáteis para garantir energia mínima em casa.

Muitas dessas utilizações, no entanto, não são feitas da forma mais segura. O problema não é o uso de geradores — é a forma como, muitas vezes, são ligados e utilizados. Este artigo pretende esclarecer utilizadores da rede elétrica e também técnicos, de forma simples e acessível, sobre os erros mais comuns, porque acontecem e como podem ser evitados, sem alarmismo nem julgamento.

Este artigo existe para informar e prevenir, não para criticar quem já passou por momentos difíceis. Lamentamos profundamente o que se passou recentemente em Leiria, em particular na zona da Marinha Grande e arredores. Tendo estado no local e assistido à destruição, decidimos criar este artigo com o objetivo de ajudar a tornar estas situações um pouco mais seguras no futuro.

Índice

  1. Nota prévia muito importante
  2. Exemplo de quadro para geradores monofásicos
  3. A ligação à rede pública tem de ser interrompida
  4. Cabos macho-macho: porque é perigoso e alternativas seguras
  5. As proteções não são todas iguais — e o diferencial é vital
    1. Continuidade neutro–terra
    2. Ligação à terra do gerador
  6. Outros perigos: fumos tóxicos e inflamabilidade do combustível
  7. Regra simples para testar e ligar o gerador
  8. Manutenção após a utilização

1. Nota prévia muito importante

Sempre que um gerador é ligado a uma habitação, deve existir um pequeno quadro intermédio, mesmo que temporário, entre o gerador e a entrada da casa.

Esse quadro deve ter pelo menos:

    • 1x diferencial
    • 1x disjuntor

Este ponto é transversal a tudo o que se segue.

2. Exemplo de quadro para geradores monofásicos

Para equipamentos trifásicos, o quadro e as proteções terão de ser para mais polos.

Equipamento

Quadro: VE103F

Disjuntor: 10 A, 16 A ou 32 A para cabos, respetivamente:

    • 3G1,5 mm²
    • 3G2,5 mm²
    • 3G6 mm²

A MElectric, de forma geral, aconselha 16 A, pois assim também protege o circuito de tomadas onde o gerador será ligado.

Diferencial:

    • 25 A / 30 mA ou 40 A / 30 mA, para geradores até 5 kVA ou superiores, respetivamente
    • É essencial que seja 30 mA para proteção do utilizador

Ligações

    • Cabo do gerador ligado à entrada do diferencial
    • Diferencial ligado em série com o disjuntor
    • Disjuntor ligado ao cabo de saída
    • Ligação entre condutor de neutro e barramento de terra antes do diferencial
    • Um quadro simples deste tipo torna a ligação muito mais segura, mesmo em contexto provisório.

3. A ligação à rede pública tem de ser interrompida — sempre

Um erro muito frequente é ligar o gerador à instalação da casa sem garantir que a ligação à rede elétrica pública está totalmente desligada. Isto acontece porque se assume que “a rede está sem energia” ou se utiliza um elemento do quadro, muitas vezes o diferencial, como forma de corte.

O risco é real. Mesmo durante uma falha geral, a rede pode ser reenergizada a qualquer momento, o gerador pode injetar tensão na rede pública, equipamentos podem ser danificados quando a rede retorna enquanto o gerador está ligado e técnicos podem ser colocados em perigo ao encontrarem condutores vivos sem o saber.

Qualquer ligação de um gerador exige um seccionamento físico, claro e dedicado da rede pública.

Mesmo que hoje a ligação seja feita de forma provisória, a solução correta a médio prazo é a instalação de um comutador I-0-II, que desliga completamente a rede, liga o gerador de forma segura e impede qualquer alimentação cruzada. Um exemplo típico é o inversor modular SFT240 da Hager.

4. Cabos macho-macho: porque é perigoso (e o que usar em vez disso)

O uso de cabos com duas fichas macho continua a ser um erro comum. Os pinos ficam sob tensão e expostos, basta o cabo sair parcialmente para existir risco de eletrocussão e qualquer tomada da casa pode ficar energizada sem controlo.

Este tipo de cabo não deve ser utilizado em nenhuma circunstância.

Uma alternativa simples e segura é substituir a tomada por uma tomada CEE monofásica, de 16 A ou 32 A, conforme a potência necessária. As tomadas CEE mantêm os condutores protegidos, evitam contactos acidentais e eliminam o risco de eletrocussão ao ligar ou desligar o cabo.

5. As proteções não são todas iguais — e o diferencial é vital

É importante esclarecer um ponto essencial. Os disjuntores protegem cabos e equipamentos contra sobrecargas e curtos-circuitos. O diferencial é o único dispositivo que protege as pessoas contra eletrocussão.

Se o diferencial não existir, não estiver corretamente ligado ou não conseguir atuar, num choque elétrico nada interrompe a corrente e o resultado pode ser fatal. Por isso, nunca se deve assumir que as proteções do quadro chegam. Deve existir sempre um diferencial dedicado no quadro intermédio do gerador.

O diferencial instalado no quadro geral da casa, não servirá este propósito, devido a sua posição mas também porque é dos unicos elementos em muitas das casas que garante o corte de fase e neutro – util para seccionar a casa da rede tal como descrito no ponto 3.

5.1 Continuidade neutro–terra

Com o gerador a alimentar a instalação, deve verificar-se, com um multímetro, a continuidade entre neutro e terra.

Se a resistência for elevada, por exemplo superior a algumas dezenas de ohms, o diferencial não irá funcionar corretamente. Nestes casos, no quadro intermédio entre o gerador e a casa, deve ser feita uma ligação neutro–terra à entrada do diferencial, do lado do gerador.

Assim, o diferencial funciona corretamente, a proteção mantém-se mesmo quando o diferencial do lado da casa está desligado e o quadro anteriormente sugerido já contempla esta ligação.

5.2 Ligação à terra do gerador

Na maioria das situações observadas, o gerador não está ligado a um piquete de terra e assume-se que “a casa já tem terra”.

Sem uma ligação de cobre à terra do lado do gerador, a resistência do circuito de terra pode ser muito elevada, a corrente de defeito será muito baixa e é quase certo que o diferencial não irá disparar.

O resultado é que uma carcaça metálica, a parte exterior do equipamento, pode ficar sob tensão sem que ninguém se aperceba. Isto pode acontecer em frigoríficos, micro-ondas, máquinas de lavar roupa ou loiça, secadores, fornos, entre outros.

Na rede pública, isto não acontece porque no posto de transformação o neutro está ligado à terra. Essa segunda ligação já existe; em casa vemos apenas uma, porque a outra está no PT. Com um gerador, essa ligação tem de ser recriada localmente. Por isso, o gerador deve estar sempre ligado a um piquete de terra próprio.

6. Outros perigos: fumos tóxicos e inflamabilidade do combustível

Além dos riscos elétricos, existem outros perigos importantes.

Geradores a gasolina ou gasóleo produzem fumos e podem libertar monóxido de carbono, um gás incolor e inodoro que pode ser mortal. O gerador deve funcionar sempre no exterior, em local bem ventilado, nunca em interiores, garagens ou perto de portas e janelas.

Existe também risco de incêndio. A gasolina é altamente inflamável e os seus vapores podem inflamar com facilidade. Nunca se deve reabastecer o gerador com o motor quente e o combustível deve ser armazenado em recipientes próprios, afastado de fontes de calor e fora de espaços habitados.

7. Regra simples para testar e ligar um gerador em segurança

Antes de instalar

    1. Verificar a ligação de neutro a terra no gerador
    2. Desligar o diferencial no quadro da casa, garantindo o corte simultâneo de fase e neutro
    3. Utilizar um quadro intermédio como o descrito acima

No momento de ligar o gerador

    1. Confirmar que a casa está desligada da rede pública, tanto fase como neutro (Desligar o diferencial do quadro geral da casa)
    2. Ligar o cabo de terra entre o gerador e um piquete de terra, devidamente cravado no solo
    3. Ligar o cabo do gerador ao quadro intermédio
    4. Só depois arrancar o gerador

8. Manutenção após a utilização

Após a utilização do gerador é fulcral fazer-lhe manutenção, ou numa situação futura poderá não ser possível utilizá-lo.

Algumas boas práticas incluem:

    1. esvaziar o tanque para evitar a degradação do combustível,
    2. drenar o carburador em geradores a gasolina quando possível,
    3. verificar o nível e o estado do óleo,
    4. limpar o filtro de ar e testar o gerador periodicamente.

Um gerador de emergência só é útil se estiver operacional quando for necessário.

9. Conclusão

Usar um gerador numa situação de emergência é compreensível e, muitas vezes, necessário. No entanto, a eletricidade não distingue boas intenções de ligações perigosas.

Com informação correta e algumas medidas simples, é possível evitar acidentes graves, proteger pessoas e equipamentos e garantir que o gerador é uma verdadeira ajuda em momentos críticos.